... da sensação da cola a descolar dos dedos. De ver formas nas nuvens. De respirar bem fundo no campo. Do entardecer. De amoras. Do calor do sol a bater-me na cara. De flores. Do orgulho de olhar para algo feito com as minhas próprias mãos. Da ternura da minha mãe. Do sorriso do meu pai. De tocar nas orelhas dos cães. Das almofadas das patas dos gatos. Do que a música me faz sentir. De saudades. Do cheiro a lenha. De farinheira. De um abraço espontâneo. De rir até doer a barriga. De saber que ainda há tanto para viver. Do cheiro a relva cortada. De sonhar acordada. De estrear coisas. De esparguete com ovo mexido. De arrepios. De querer sempre mais. De enrolar a ponta do cabelo. Das borboletas no estômago. De compal de pêra. Dos rebuçados do japonês. De olhares cúmplices. De carícias nas costas. De descobrir música nova. De livros. De cantar alto no carro. De girafas. De amêndoas. Do topo estaladiço do bolo de arroz. De mudanças. Das cores do outono. Das noites quentes. De figos. De ficar espantada. De dançar. De ti.
Um céu nublado. Uma brisa de outono. Uma cozinha estranha mas familiar. Um mar agitado, uma areia molhada. Uma espera por algo. Por alguém.
Uma viagem de carro em silêncio. Palavras que não saem porque não se acham. Promessas amarrotadas, o aproximar do fim.
Memórias de um tempo passado. Folhas viradas que insistem em ser relidas. Histórias e momentos que nos fazem abraçar a vida e absorver cada pitada com toda a sofreguidão do mundo.
Há dias e noites em que olhamos para o que ja não é e pensamos no que somos. Há dias e noites em que o que já foi nos dá um arrepio na nuca e nos lembra que existiu.
Há dias e noites.
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